Valorização profissional e sustentabilidade criativa são desafios enfrentados por produtores culturais na era da IA, apontam especialistas


28 MAI 2026



O tema foi o centro dos debates da 2ª sessão principal do FIB 16, que acontece até a próxima sexta-feira (29), em Belém

Diante do avanço da Inteligência Artificial (IA) e da crescente apropriação de conteúdos culturais por grandes plataformas, como equilibrar a abertura e a circulação do conhecimento com a remuneração justa para autores? Este foi o centro do debate que permeou a segunda sessão principal do 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB16), evento que acontece até sexta-feira (29), no Hangar Convenções & Feiras da Amazônia, em Belém (PA).

O tema ganha relevância em um contexto em que sistemas de inteligência artificial atuam simultaneamente como consumidores e produtores de conteúdo. Para funcionar, essas tecnologias dependem de grandes volumes de dados e obras culturais disponíveis na Internet, reutilizando referências e padrões existentes para gerar novos materiais. Embora esse cenário amplie as possibilidades criativas e reduza as barreiras de entrada para novos produtores, também levanta questionamentos sobre reconhecimento, valorização profissional e sustentabilidade econômica de quem vive da produção cultural e informacional. O mediador da sessão foi o conselheiro do CGI.br Rafael Evangelista.

Durante o debate, o pesquisador da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), Leonardo Foletto, chamou a atenção para a dimensão dessa transformação ao afirmar que “os sistemas de inteligência artificial já engoliram praticamente toda a Internet”, destacando como os modelos atuais foram treinados a partir de décadas de produção cultural e informacional disponibilizadas online.

Brasil no centro do consumo de IA avança na discussão de aspectos regulatórios e econômicos 

A discussão também evidenciou como o Brasil ocupa uma posição estratégica nesse novo cenário digital. O jornalista Lucas Leffa, que atua na Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, destacou que o país está entre os maiores usuários globais de ferramentas de inteligência artificial generativa. “O Brasil é o terceiro país que mais envia mensagens diárias para o ChatGPT. São cerca de 140 milhões de mensagens todos os dias”, afirmou. Segundo ele, esse alto nível de conectividade e produção de dados transforma o país em alvo prioritário das grandes empresas de tecnologia, interessadas tanto no mercado consumidor quanto no potencial informacional produzido pela população brasileira.

Ao mesmo tempo em que a mesa discutiu aspectos regulatórios e econômicos da IA, os impactos concretos dessas tecnologias sobre os trabalhadores criativos apareceram de forma recorrente. A artista visual e diretora de comunicação da União Democrática dos Artistas Digitais, Ana Maria Sena, relatou mudanças profundas no mercado de animação, audiovisual e desenvolvimento visual, marcadas pela redução de pessoas e intensificação das rotinas de trabalho. “Equipes de filmes em que existiam quatro pessoas trabalhando, hoje em dia, só tem uma pessoa”, afirmou. Segundo ela, a adoção acelerada dessas ferramentas tem sido acompanhada por aumento de pressão, retrabalho e adoecimento entre profissionais do setor. 

A dimensão econômica e cultural desse processo também apareceu na fala da advogada, coordenadora Jurídica na Squid Creators, Bruna Oliveira, que chamou atenção para o valor estratégico da produção cultural brasileira dentro do ecossistema digital global. Para ela, a apropriação massiva de conteúdos culturais por sistemas automatizados pode gerar um esvaziamento econômico e simbólico da produção artística nacional, sobretudo quando esse material passa a alimentar plataformas internacionais sem retorno proporcional para os criadores ou para o próprio país.

Trabalhadores do setor da cultura já sentem os impactos

Os efeitos da automação sobre cadeias produtivas específicas da cultura também foram destacados pela atriz e diretora colegiada da Associação de Dubladores Dário de Castro (ADCC), Adriana Torres, que mencionou os impactos da IA sobre o setor de dublagem. Na avaliação dela, o avanço desses dispositivos tem levantado preocupações sobre substituição de profissionais e a perda de qualidade artística. “Como essa tecnologia vai ser implementada no nosso setor enquanto uma mera ferramenta de apoio, e não algo que possa efetivamente substituir o trabalho humano?”, questionou. Adriana também ressaltou o papel cultural da dublagem brasileira na adaptação de conteúdos internacionais, defendendo que o trabalho humano continua sendo fundamental para traduzir referências, humor e contextos culturais para o público nacional.

Ao longo da discussão, os participantes também procuraram apontar possíveis caminhos para enfrentar os desequilíbrios produzidos pela expansão das plataformas de IA. Leonardo Foletto defendeu que o debate precisa avançar para modelos coletivos de sustentação econômica capazes de redistribuir parte do valor gerado a partir da extração massiva de dados e conteúdos culturais. “Cobrar de quem extrai pra sustentar quem produz”, afirmou, ao defender mecanismos de reciprocidade econômica, fundos coletivos de remuneração e fortalecimento de infraestruturas digitais públicas e comunitárias. Para o pesquisador, a discussão não deve se limitar ao endurecimento das regras de copyright, mas buscar formas de equilibrar circulação aberta de conhecimento e remuneração justa.

Sistema de direitos autorais precisa estar adaptado à era da IA

A discussão sobre modelos coletivos de remuneração também apareceu na fala de Lucas Leffa, que detalhou propostas em debate dentro do governo federal para adaptar o sistema de direitos autorais à realidade da inteligência artificial. Segundo ele, o avanço dessas tecnologias pode comprometer uma cadeia produtiva que hoje movimenta parcela significativa da economia brasileira. “O valor econômico da cultura e a máquina que a indústria cultural promove no nosso país é muito nítido”, afirmou. Ao comentar os debates em torno do Projeto de Lei 2338/23 (regulação da IA), Lucas explicou que o governo discute mecanismos de gestão coletiva e modelos de “balcão único” para viabilizar pagamentos relacionados à mineração de obras utilizadas no treinamento de sistemas de IA. “A gente começa a encontrar caminhos que podem ser aplicáveis à nossa realidade”, disse.

O debate também retomou experiências históricas da cultura digital brasileira ligadas à produção aberta e colaborativa, como o software livre e os modelos de licenciamento em Creative Commons. Essas iniciativas ajudaram a fortalecer a circulação de conhecimento e a construção de alternativas ao modelo tradicional de propriedade, mas, ao longo do tempo, também evidenciaram desafios relacionados à concentração das plataformas digitais e à dificuldade de garantir formas permanentes de remuneração para criadores de conteúdo. Nesse contexto, Foletto defendeu que “o copyright deixou de ser suficiente para sustentar quem cria”, provocando uma reflexão sobre os limites dos mecanismos tradicionais de proteção autoral diante das novas dinâmicas impostas pela inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, o debate apontou que a discussão sobre regulação da IA no Brasil passa também pela tentativa de construir mecanismos de remuneração e reconhecimento pelo uso massivo de conteúdos em processos de treinamento automatizados. Lucas Leffa observou que muitas dessas tecnologias operam a partir de materiais apropriados sem compensação aos criadores originais. “Essas empresas efetivamente não pagaram para poder se apropriar e produzir esse resultado”, afirmou, ao comentar o funcionamento dos modelos generativos e os debates em torno do PL 2338, que tramita no Congresso Nacional.

Diante desse cenário, a discussão propôs refletir sobre novos arranjos institucionais, econômicos e políticos capazes de equilibrar abertura e proteção do trabalho criativo. A ideia de “comum” apareceu como eixo central do debate, não apenas como defesa do livre compartilhamento de conteúdos, mas como uma tentativa de pensar regras coletivas de uso, reconhecimento e distribuição de valor em um ambiente digital marcado por profundas desigualdades de poder. A proposta foi discutir caminhos que permitam incorporar a inteligência artificial à infraestrutura contemporânea da cultura sem abrir mão de condições justas de vida e trabalho para artistas, jornalistas e demais profissionais da criação. Como síntese dessa preocupação coletiva, Foletto afirmou que o desafio atual é pensar “como é que a gente vai sustentar coletivamente quem cria de fato”.

Conectividade e Inclusão Digital na Amazônia Brasileira 

 Ainda na quarta-feira, uma sessão ampliou a participação de representantes de movimentos populares da Amazônia, que contribuíram com reflexões sobre um estudo em desenvolvimento pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do NIC.br. O projeto, apresentado por Graziela Castello, coordenadora de Estudos Setoriais e Métodos Qualitativos do Cetic.br/NIC.br, vem sendo construído em articulação com organizações locais e atores que atuam diretamente na região, e conta com o apoio da Câmara de Universalização e Inclusão Digital do CGI.br e suporte do Programa de Acesso Digital do Governo do Reino Unido (Digital Access Programme – DAP).

Participaram do debate Vagner Diniz, gerente do Ceweb.br/NIC.br; Júlia Wolff do DAP - FCDO do Governo do Reino Unido;  Hemanuel Veras, do Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA); Sabrina Costa, da Rede Conexão Povos da Floresta; e José Galiza, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Quilombolas (CONAQ).

Mais da Programação 

Nesta quinta-feira, 28 de maio, um dos destaques do FIB16 será a realização do 3º Encontro Nacional de Jovens na Governança da Internet, que reúne jovens lideranças para discutir participação, inovação e inclusão digital. Além disso, acontecerá a Sessão Principal “ECA Digital e plataformas digitais: desafios e boas práticas”, abordando a proteção de direitos, a responsabilidade das plataformas e os caminhos para uma Internet mais segura e democrática.

Informações e Inscrições

A participação no FIB continua com inscrições gratuitas abertas para o público que deseja acompanhar a programação de forma online, pelo site oficial: https://fib.cgi.br/pt/agenda. A transmissão ao vivo acontece pelo canal do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR no YouTube: https://www.youtube.com/playlist?list=PLQq8-9yVHyOapoLsoQsXIzlGnLPdeJJA9.

Sobre o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.br
O Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR — NIC.br (https://nic.br/) é uma entidade civil de direito privado e sem fins de lucro, encarregada da operação do domínio .br, bem como da distribuição de números IP e do registro de Sistemas Autônomos no País. O NIC.br implementa as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil - CGI.br desde 2005, e todos os recursos arrecadados provêm de suas atividades que são de natureza eminentemente privada. Conduz ações e projetos que trazem benefícios à infraestrutura da Internet no Brasil. Do NIC.br fazem parte:  Registro.br (https://registro.br), CERT.br (https://cert.br/), Ceptro.br (https://ceptro.br/), Cetic.br (https://cetic.br/), IX.br (https://ix.br/) e Ceweb.br (https://ceweb.br), além de projetos como Internetsegura.br (https://internetsegura.br) e Portal de Boas Práticas para Internet no Brasil (https://bcp.nic.br/). Abriga ainda o escritório do W3C Chapter São Paulo (https://w3c.br/).

Sobre o Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br
O Comitê Gestor da Internet no Brasil, responsável por estabelecer diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da Internet no Brasil, coordena e integra todas as iniciativas de serviços Internet no País, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados. Com base nos princípios do multissetorialismo e transparência, o CGI.br representa um modelo de governança da Internet democrático, elogiado internacionalmente, em que todos os setores da sociedade são partícipes de forma equânime de suas decisões. Uma de suas formulações são os 10 Princípios para a Governança e Uso da Internet (https://cgi.br/resolucoes/documento/2009/003). Mais informações em https://cgi.br/.

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