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de 1995
O Desenvolvimento de uma Sociedade da Informação
no Brasil
Prof. Carlos J. P. de
Lucena
O Brasil vive hoje um momento extremamente estimulante
às vésperas do ingresso do setor empresarial e da
sociedade em geral, na Internet. Um pequeno segmento da
sociedade, a comunidade acadêmica, já experimentou esta
sensação há cinco anos atrás e já pode hoje
testemunhar que sua vida já não é mais a mesma desde
então.
Antes do final do ano, várias "espinhas
dorsais" de redes farão o papel de infovias
federais ligando diversas cidades em diferentes estados
do país. A RNP, já com velocidades muito maiores,
conduzirá trafego misto (academico e comercial) através
de todo o país e a Embratel e diversas empresas privadas
(cerca de três até o final do ano) farão também o
mesmo papel, cada qual cobrindo um conjunto diferente de
capitais.
Em vários estados diferentes redes regionais estenderão
os recursos da Internet a cidades do interior através de
suas "espinhas dorsais" estaduais. Centenas de
provedores de acesso, distribuídos por todo o país,
estarão conectados à "espinha dorsal" de sua
preferência e, através deles, centenas de milhares de
usuários serão adicionados à pequena comunidade (de
cerca de oitenta mil pessoas) de usuários
predominantemente acadêmicos.
O fenômeno que se processou na comunidade acadêmica ao
longo dos últimos cinco anos pode ser sintetizado da
seguinte maneira: o cientista ou educador brasileiro, que
está hoje fora da Internet, está privado da
comunicação constante com seus colegas em todo país e
no mundo e é, certamente, uma pessoa muito defasada em
termos de informações sobre a sua área. Conferências
nacionais e internacionais são anunciadas, organizadas e
até realizadas através da rede e passaram a ocorrer com
uma frequência sem precedentes e, praticamente, toda a
literatura atual sobre todas as áreas do conhecimento
está há algum tempo disponível na rede.
Lembrando um exemplo recente, para o congresso da
Sociedade Brasileira de Computação, que foi realizado
em conjunto com o mais tradicional congresso latino-
americano da área, foram submetidos 300 trabalhos de,
praticamente, todos os países latino-americanos (com
grande predominância brasileira). Como a maioria dos
trabalhos são elaborados em co-autoria, sabe-se que
participaram aproximadamente 1000 autores, dos quais,
apenas tres, não dispunham de endereços eletrônicos na
Internet. É claro que os cerca de 200 árbitros
mobilizados para o julgamento dos artigos fizeram todo o
trabalho através da rede.
O trabalho cooperativo, envolvendo pesquisadores
localizados em diferentes locais do país e do mundo, vem
crescendo significativamente. Por exemplo: um
pesquisador, que é o único de sua área em uma pequena
universidade, não é mais uma pessoa isolada e pode
participar da comunidade científica da sua especialidade
no mundo. Se ele deseja lecionar um curso básico em sua
instituição ele pode recorrer a bases de dados na World
Wide Web que contêm material instrucional (textos,
transparências, exercícios etc) sobre quase qualquer
tipo de curso básico. E mais, este material é
disponibilizado gratuitamente por colegas de todas as
partes do mundo.
É apenas natural que a sociedade como um todo, a partir
do momento que tiver a sua disposição a tecnologia
Internet, venha a ser submetida a transformações de
natureza semelhante às que ocorreram na área
acadêmica. E, se a natureza das transformações têm
aspectos tão positivos como os que atuaram no caso da
comunidade acadêmica, é justo procurar estender os
privilégios da sociedade da informação para o maior
segmento possível da sociedade. Este é um desejo que
está presente em todos os países que já aderiram
maciçamente à tecnologia Internet, como começa a
acontecer no Brasil. Neles, como aqui, começa-se a
desenvolver métodos eficazes para transferir
conhecimento para a sociedade sobre os benefícios da
tecnologia Internet, com o objetivo de forjar uma
legítima sociedade da informação.
No Brasil, à semelhança do que está sendo feito em
outros países, foi criado um Comitê Gestor da Internet,
que tem, dentre as suas principais atribuições, a
missão de disseminar a cultura Internet na sociedade.
O Comitê Gestor da Internet no Brasil atravessa uma fase
em que se dedica à composição de cerca de quinze
grupos de trabalho (GTs), que serão formados por cerca
de 150 pessoas, em diferentes áreas relacionadas à
tecnologia Internet. Cada GT tem a missão típica de
disseminar a tecnologia Internet na sua área de
atuação conduzindo, para isso, projetos piloto que
exibam a viabilidade e eficácia da utilização dessa
tecnologia. Como é natural, dado que a Internet no mundo
e no Brasil teve origem no meio universitário, o
contingente de pessoas do mundo academico nos diferentes
GTs será muito significativo.
Os diversos GTs surgiram de atividades tradicionais da
RNP, da lista de missões especificadas para o Comitê e
de iniciativas expontâneas da sociedade que passaram a
demandar uma reflexão mais sistemática e uma maior
estruturação. Uma classificação não muito rigorosa
dos GTs concebidos até o momento permite grupa-los em
GTs de engenharia de redes, GTs destinados a criar uma
economia de redes e GTs destinados ao desenvolvimento dos
usuários de uma sociedade da informação. No que se
segue, vamos mencionar apenas o último grupo.
Os GTs que se concentram nos aspectos que poderiam ser
denominados de socio-culturais atuam em aplicações
estratégicas para a sociedade, no apoio a aplicações
comunitárias e na articulação com a sociedade. Outros
GTs, em fase de organização, se preocuparão com as
relações internacionais e com a geração e a qualidade
do emprego.
Três GTs cobrem as aplicações estratégicas. As
aplicações contempladas até o momento estão nas
áreas de educação a distância, meio ambiente e
recursos naturais e bibliotecas e museus virtuais.
Exemplos de projetos piloto a serem desenvolvidos pelos
GTs mencionados são a criação de um curso
especializado em redes e totalmente conduzido via
Internet, a indução da criação de freenets (sem
custos para os usuários) pela sociedade, um sistema de
informação sobre emprego nas páginas da WWW e projetos
de cooperação internacional.
A expectativa é a de que os novos "internautas" brasileiros
(pessoas físicas, empresas e governo) que passem a utilizar serviços
Internet no futuro próximo, possam buscar inspiração para seus projetos
em iniciativas pioneiras em andamento no país.